Sobre Expressão Artística e o Músico-Instrumentista    

Sou músico profissional desde os 17 anos, quando tirei a minha "carteira azulzinha" da OMB. Tendo começado a tocar aos 14, tive de "correr atrás do prejuízo" e tentar aprender o máximo que conseguisse em pouco tempo. A sedução exercida em mim pela música data de tempos remotos - de ouvir "por tabela" o "Sgt, Peppers", o "Help" e aquelas duas coletâneas dos Beatles que todo mundo tinha (duplas, uma com capa de borda azul e a outra com borda vermelha), absolutamente todos os discos de Chico Buarque (na medida em que iam sendo lançados), João Bosco, Caetano e Milton. Lembro bem do disco "Time Out" de Dave Brubeck, da "Overture 1812" (gostava dos canhões!), que parecem ter sido favoritos de meus pais. Lembro da primeira mesada gasta inteiramente em discos, aos 9 anos: "Double Fantasy" do John Lennon (que morreria naquele ano), "Revolver" dos Beatles e uma coletânea "Video Hits"…
Já na época do Rock'n'Rio (o primeirão), a sedução já se transformara em obsessão e na virada de 84 para 85 eu já avisara aos meus pais que naquele ano eu ia estudar música. Já havia combinado com meus amigos que eu tocaria baixo e cantaria na banda! A essa altura, já tinha as paredes do quarto cobertas de posters de bandas e possuía uma pequena coleção de discos.

Isso tudo ilustra bem por qual porta a música costuma adentrar as nossas vidas: as "portas da percepção", pela rota do impacto estético (muito antes de saber "dar nome a esse boi"), pelo viés da emoção que arrebata, que comove e modifica. Que faz a gente se sentir diferente enquanto a experimenta, e que nos faz sentir especiais quando a produzimos. É a coisa mais próxima de "magia" que conheço. Em suma: não conheço ninguém que tenha se tornado músico porque queria aprender determinada técnica num instrumento ou porque "queria conhecer a fundo a suíte modal menor-melódica".

Então veio 85 e as aulas de baixo com Adriano Giffoni na Pro-Arte (depois Toni Mendes, Leonardo Luchini, Paulo Russo e particularmente com Aurélio Dias e Omar Cavalheiro), e movido pela curiosidade e pelo afã de querer ser capaz de tocar as coisas que ouvia, rapidamente deixei, como todo músico que conheço, que a sedução se tornasse obsessão. Todo o tempo em que não estava em sala de aula no colégio era gasto com baixo, metrônomo e os cadernos e "métodos". Nos fins-de-semana eram os ensaios com os amigos que, quando não se demostravam tão "fisgados" quanto eu, sofriam com a minha insistente cobrança para que "melhorássemos", que "o som ainda não tava nem perto do legal".
Do colégio e da Pro-Arte para o bacharelado em contrabaixo na UNI-Rio (sob tutela do grande Antonio Arzolla) e a "vida paralela" tocando rock progressivo ou funk-rock com as minhas bandas, tocando jazz "na noite" e com os amigos "insiders" e acompanhando cantoras/cantores, e mais tarde trabalhando pra valer com Lobão, no estúdio e na estrada. E nesse processo "evolutivo" o músico-instrumentista ganhou "momentum" e disparou à frente daquele outro jovem carinha seduzido fatalmente pela musa das musas e ingenuamente, perpetuamente por ela encantado.

Também ressalto aqui: não conheço nenhum músico-instrumentista que, em determinado momento não tenha olhado com desdém os discos da adolescência tomando-os por música "boba" e não os tenha trocado pelos álbuns do Weather Report, do Hermeto Pascoal e do Egberto Gismonti - ou algo parecido…

Decifrando os meandros da música, desvendando seus labirintos, conhecendo cada vez mais a fundo o funcionamento de seus mecanismos e aprendendo a manusear suas "ferramentas", tornei-me o proverbial "músico profissional". Capaz, tecnicamente apto, versátil, com todos os pré-requisitos essenciais a até alguns adicionais. Um "bicho-músico" de boa estirpe, um "animal de competição".
Mas é claro: em nenhum de nós "músicos-profissionais" o encanto daquela primeira sedução morre por completo. Adormece sim - às vezes por décadas a fio - se esconde em sonhos e devaneios durante ensaios e gravações, e faz visitas inesperadas durante um solo, um improviso ou uma passagem mais bonita de um arranjo quando você está no palco, mesmo que seja ao lado de um "artista" por cujo trabalho não se nutre lá muita admiração. Como amantes de tempos idos, somos lá dentro eternamente seduzidos pela música. Ao ponto de encontrarmos seu encanto em lugares insuspeitos (já toquei uma balada com Lobão em Boston tendo os olhos cheios d'água e já me emocionei igualmente outro dia tocando samba-funk ao lado de Serjão Loroza na Modern Sound).

E é esse sentimento arrebatador que se experimenta tocando que nos impulsiona a transpor a barreira da "experiência" buscando o próximo patamar: o de "proporcionar a experiência". A "auto-expressão", a "expressão artística individual". Enfim, em algum momento o "bicho-músico" se olha no espelho e resolve que é hora de "dizer a que veio". E aí se apresenta um grande desafio…

Depois de anos cultivando as tão apreciadas qualidades do bom músico profissional (precisão rítmica, afinação, sonoridade, conhecimento harmônico e o intangível "bom-gosto"), chega o momento de consolidar a "persona musical". Como um adolescente que, após 18 anos aprendendo, sendo educado e ensinado, "preparado para a vida", o músico chega a esta encruzilhada com um questionamento: "Ok, consegui chegar aqui. Estou pronto, sei fazer tudo aquilo que se espera de mim, sei contribuir para que música soe bem, posso até emocionar as platéias em vários momentos, sei deixar a música passar por mim e sei conduzi-la também. Sei tocar "Teen Town" e "Donna Lee", faço uma boa imitação do Luizão Maia e sei várias linhas do Paul McCartney de cor. Tudo bem, sou profissa de verdade. Mas quem sou eu?????"

É que depois de anos colhendo influências, decupando estilos, examinando licks e maneirismos no "micriscópio" (o do músico é o headphone) e absorvendo referências, o músico se torna um somatório disso tudo. Sua "persona musical", como num paciente mental que sofre de múltiplas personalidades, é definida pela soma das "referências" que absorveu. Na música isso até confere ao cara um charme especial, uma desejável versatilidade: "o camarada pode tocar uma frase do Jaco, na música seguinte mimetizar-se no Sting e depois soar que nem o Jamil Joanes! A gig é dele!"
No entanto, até mesmo em gratidão aos Jamils, Jacos, Luizões, Arthurzinhos, Ray Browns e Dave Hollands, chega um momento em que se torna importante assinar o próprio nome, em letras bem legíveis e dar a sua "contribuição" ao legado. Por mais modesta que seja (e aqui não há mesmo como avaliar a priori a relevância desta contribuição). E também para se re-encontrar com aquele "moleque que queria muito fazer música"…

É nesse momento que me encontro agora, mixando o primeiro CD de meu projeto autoral, o "8VB (Oitava Abaixo)". Em parceria com meu grande amigo, guitarrista e compositor de raro talento Chester Harlan, o disco se chamará, muito adequadamente penso eu, "Amicizia". Significa "amizade", e a celebra ao longo das 11 faixas: a amizade do músico com a música, dos músicos entre si e do sentimento de amizade em si, do partilhar, do dividir. De compartilhar com as pessoas uma percepção particular da música, e, quem sabe, dar a nossa supracitada "contribuição ao legado", com a nossa "assinatura". É um processo que começa oficialmente agora, mas seguirá pelo resto da minha vida, espero.
Divido isso com vocês porque acho importante que todos nós músicos não nos esqueçamos jamais que os artistas somos nós. Artista é quem faz arte. E a nossa arte é fazer música.

Um abraço a todos e bons sons!

 

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Bruno Migliari
Bruno
Migliari

 

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